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    terça-feira, 28 de maio de 2013

    A geração perdida


    A geração perdida


    À primeira vista pareciam bafejados pela sorte. Nascidos num país democrático, com escolas e universidades gratuitas; sem tabuada, mas com telemóveis e redes sociais. Com o passar dos anos perceberam que não é bem assim, que a vida é mais dura e exigente do que a C+S lá do bairro.

    A primeira desilusão foi com a entrada no mercado de trabalho. Com tantas portas a fecharem-se, o jovem tuga desistiu do emprego para a vida. Já só pensa num trabalho, mesmo mal pago, mas só lhe dão estágios - temporários, claro, porque há muitos à espera na fila. Os números falam por si: Portugal tem a quarta taxa de desemprego jovem mais elevada da UE27 (38,3%), com tendência a subir.

    É toda uma geração que cresceu a ouvir falar de igualdade, mas ao chegar ao mercado se depara com um sistema tão desigual como hipócrita, que protege quem está dentro e afasta os que querem entrar. A começar no Estado que mantém um sistema de "faz-de-conta". E a acabar nos sindicatos que enchem a boca com "direitos adquiridos", que tolhem o mérito e a mobilidade dentro das organizações - e da própria sociedade - fechando a porta aos mais novos, que invejam de fora certos lugares dourados a que nunca vão conseguir aceder.

    Uma geração que ouve falar de "contrato social", mas nunca teve um contrato de trabalho. Que ouve discutir reformas de milhares de euros, mas não consegue sequer um salário de mil euros, quanto mais uma reforma. Apenas conhece a noite escura dos "recibos verdes" onde não há licenças, férias ou subsídios.


    Uma geração que ouve falar de empreendorismo, mas se depara com uma sociedade desconfiada e avessa ao risco, com bancos que só emprestam dinheiro a quem já o tem, ou traz pais ricos como fiadores.

    Uma geração que ouve falar do problema demográfico, mas que quando decide casar e ter filhos não encontra uma casa decente para arrendar a preços acessíveis, apesar do centro histórico da sua cidade estar vazio de gente e de vida. Que quando foi ao banco pedir um empréstimo para um cubículo suburbano lhe pediram um "spread" quatro vezes mais alto do que os pais estão a pagar.

    A chamada "geração perdida" tem emigrado em massa, apesar de ter qualificações como nenhuma outra, num ‘brain drain' que nos empobrece a todos. Vejam-se as centenas de doutorados (e pós-doutorados), com bolsas pagas pelo Estado, que não têm lugar nas nossas universidades, que continuam feudos privativos dos professores da casa - alguns não publicam uma linha há vários anos.

    A Europa acordou tarde, mas quer agora lançar uma espécie de ‘New Deal' para combater o desemprego da "geração em risco" - como lhe chama a OIT (www.ilo.org). Uma geração que nada teve que ver com a origem desta crise, mas sofre com ela como nenhuma outra. Recebe um País deprimido, uma sociedade fechada e envelhecida, que não dá oportunidades aos mais jovens, mas lhe apresenta uma dívida pública astronómica (127% do PIB) por pagar.

    Não sei por quanto tempo isto pode durar, mas o caldeirão pode rebentar um destes dias.

    Paulo Marcelo, Jurista

    Fonte do artigoeconomico.sapo.pt


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